
Borat inicia o ano com um humor negro e afinado, em um filme que muito se viu identidade com toques de originalidade, principalmente do ator Sacha Cohen. Ainda nesse mesmo início de ano, pude ver o interessante Pecados Íntimos, com ótimas atuações, numa história que fala sobre os perigos de uma aventura adulterina.
Também foi um ano de dois bons filmes episódicos, ou seja, os conglomerados de curtas que, naturalmente, são alguns interessantes e outros nem tanto. Um deles, Paris te amo, fala sobre inúmeras histórias de amor na cidade parisiense – já comentado neste blog no dia 2 de junho de 2007. Já o outro, A cada um seu cinema, foi exibido no Festival do Rio e ainda não estreou, mas vale por belos curtas de diretores consagrados – cada um adotando sua visão de cinema, cada um com seu cinema.
Falando em Festival do Rio, este ano pude conferir exatos 30 filmes dos mais de 500 do Festival. Sonhando Acordado, de Michel Gondry – sim, aquele mesmo de Brilho Eterno – que novamente utiliza recursos surrealistas numa montagem ágil, sem aquele brilhantismo que conhecemos, mas não deixando de ser interessante, sendo protagonizado pelo Gael García Bernal. Na vertente mais pop do festival, dois filmes esperados da dupla Quentin Tarantino e Robert Rodríguez. Respectivamente, À Prova de Morte e Planeta Terror, que eram pra ser um só, mas foram separados em exibições fora dos EUA. São verdadeiras sátiras a filmes B, feitos com maestria e esperteza, e com a utilização irônica de artifícios para piorar os filmes, como as cenas em que parece que o rolo da película foi remendado, indicando a falha no corte da imagem. O festival também proporcionou uma instigante comédia romântica mexicana: Pálpebras Azuis; inusitada e com seleção para
Cannes. Continuando na comédia, tem o italiano As Rosas do Deserto, que eu diria com um humor próximo de Robert Altman, principalmente em M.A.S.H. (1970). Na expectativa de diretores consagrados, o sul-coreano Kim Ki-Duk nos apresentou o intenso Sem Fôlego. Destacaria o roteiro, mas tudo no filme merece uma menção. Já o português Manoel de Oliveira mais uma vez nos proporciona uma destacável produção, desta vez aos 97 anos. É o caso de Sempre Bela, seqüência do memorável clássico A Bela da Tarde (1967). Realizar uma seqüência de um grande clássico já é difícil, com tamanha precisão, nem se fala. E pra fechar o meu destaque do festival de 2007, Dr. Plonk, filme australiano que satiriza os filmes mudos muito recorrentes até a década de 20, com excelentes tiradas. Um dos melhores, eu diria.
Os meus destaques sul-americanos também ainda não estrearam aqui no Brasil. Foram dois filmes que apareceram muito bem no Festival de Gramado: O Cobrador, uma co-

produção de vários países, adaptada do conto homônimo de Rubem Fonseca, estrelado pelo ator brasileiro Lázaro Ramos – que está muito bem no filme, mesmo sem dizer uma palavra sequer. E ainda pude ver o uruguaio O Banheiro do Papa. Comentado aqui no tópico sobre
Gramado, configura a saga de um habitante da cidade de Melo ao construir um banheiro para ser alugado no dia da visita do Papa – só não é o melhor filme que vi no ano por causa de um brasileiro que mencionarei a seguir.
Brazoocas e o melhor do ano

Estou em débito com os lançamentos do cinema nacional. No Festival do Rio foram tantos muito bem comentados, mas pouco conferi. Casa de Alice, de Chico Teixeira, que retrata a vida de uma família de classe média-baixa em São Paulo, é um bom exemplo que vale comentar. Outro filme brasileiro que marcou o ano – acredito que esse tenha sido o que mais marcou – foi Tropa de Elite, de José Padilha. Apesar de acreditar que tenha sido um pouco superestimado – mas subestimado pelos caretas que pensam cinema – é um excelente filme de ação, aos moldes de Hollywood, e que ainda gerou uma comoção e discussão sobre a temática abordada.
Mas considero um filme em especial – já comentado no tópico de Gramado – o grande filme de 2007: Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho. Um documentário com doses ficcionais, nos permite testemunhar o que é uma verdadeira inovação e obra-prima; isso aos 74 anos completos do cineasta. Entrevistas memoráveis e montagem precisa, Coutinho brinca com o nosso discernimento, e quando parecemos entender o que se passa no filme e identificar quem é quem, ele esfrega a realidade crua em nossa cara e nossa ignorância fica evidente naquele momento. Não só marcou 2007 e não só marcou o cinema brasileiro. É uma obra para o mundo.